Devo dizer que estou farto destas citações de estrangeiros supostamente
civilizados que vertem para escritos mais ou menos obscuros e sem
interesse as suas impressões sobre o Portugal do sec XVIII.
Ora o que é facto é que quando, nesse mesmo sec. XVIII o Senhor D. João
V estava a acabar o Teatro mais moderno do Mundo, o do Tejo, que
desapareceu com o Terramoto de 1755,(perto do actual Arsenal) ainda
havia antropofagia na supostamente civilizada Suiça.
E quando o Marquês de Pombal estava a acabar a rede de chafarizes
públicos que serviu até ao sec XX, as redes de esgotos, na sua versão
moderna, ainda não tinham sido inventadas e portanto não existiam em
nenhuma parte do Mundo.
Ou seja os ingleses, de onde vêm estes peralvilhos convencidos
descendentes de piratas, andavam nas suas cidades e aldeias,
nomeadamente em Londres, literalmente a pisar merda. Situação que
deixaria incomodado qualquer romano e se calhar qualquer babilónio. Nâo
falando é claro no modo como se resolviam as questões sanitárias nos
jardins de Versailles ao tempo do Rei Sol, e no que era, talvez por
falta de escravos, do ponto de vista da limpeza, a Inglaterra nos secs
XVII , XVI e anteriores, quando em Vilar de Perdizes o respectivo Paço,
no perdido Barroso, já tinha uma casa de banho desde o sec. XVI.
Dir-se-á que a memória é curta e que tendo progredido imenso depois da
Revolução Industrial esses europeus estão hoje compreensívelmente
esquecidos ou ignoram mesmo esse seu passado digamos menos limpo.
Mas os ditos holandeses que tanto limpam as suas casas continuam a
entrar nas nossas com sandálias e meias altamente suspeitas e de que
convém não investigar o cheiro. E quando vivíamos em Haia a nossa
senhoria queria que a minha mulher, tomasse banho uma vez por semana,
que ela achava que chegava muito bem e devia ser o que ela própria
fazia.
Aliás a nobreza austríaca, dizem-me vários amigos, que me abstenho de
identificar mas que são casados com filhas dela, ainda hoje não toma
banho, pelo menos com a frequência desejável. Também o consumo de água
doméstica ainda hoje no UK é muito inferior ao de Portugal que está
muito próximo dos níveis americanos. E não é, em Inglaterra, por falta
de água.
A água da laguna de Veneza é o que sabe, a da rede em Paris não é
potável, e o nosso ilustre viajante, para descanso dele, não viveu para
ver o que se passa actualmente em Nápoles com o lixo. Mas não devia ser
melhor no sec. XVIII.
Falo é claro como ex-engenheiro sanitário que teve que se interessar por
razões profissionais, mas também com uma curiosidade entre o
surpreendido e o mórbido, por esta coisa da higiene humana.
Seja como fôr a maioria dos supostamente civilizados europeus são
apenas, pelo menos no que respeita ao asseio próprio, uma data de
bárbaros com um verniz de civilização com pouco mais que 2 séculos.
Talvez valesse a pena para pôr os pontos nos iis e acabar de vez com
esta parvoíce, escrever uma "História Comparada da Porcaria na Europa".